Ki a Energia Primordial - Parte 1
Carmelo H. Ríos
O Ki, a energia que cria e anima todas as formas de existência é, apesar da aura de mistério que geralmente a envolve, o mais evidente sobre esta terra, vivemos literalmente submergidos em um oceano de Ki, pois é a substância ou a vibração que se manifesta em infinitas formas naturais. A ciência compreende agora algo que os sábios da antiguidade já conheciam, que a matéria é um som, uma vibração. Mas especulando até o infinito, intuem que esta matéria não é outra coisa que a luz densificada, ou cristalizada. Pitágoras, a mais de 2500 anos afirmava que uma pedra era, na realidade, música petrificada.
Os sábios instrutores de yoga, meditação, cura ou de artes marciais, com um designo espiritual, nos aconselham a sermos extremamente cautelosos quanto ao uso ou ao desenvolvimento do Ki ou prana, pois não deixam de insistir no fato de que a energia, Ki, Chi ou prana, é absolutamente neutra, totalmente impessoal, como a energia solar ou a eletricidade, e que nutrirá nossas tendências e inércias, da mesma forma que a luz do sol pode fazer crescer uma flor de lótus ou de ópio. Um axioma hermético muito antigo nos diz que a energia segue o pensamento, e de acordo com isso, se desejamos entrar em contato com a Fonte do Ki, devemos observar cuidadosamente a qualidade de nossos pensamentos, palavras e atos, encontrar o núcleo de onde surgem, e comprovar se emanam de nosso amor, da compaixão e da alegria, ou de nossos desejos e medos, com todas suas positivas ou fatídicas consequências. A esse respeito, diríamos que alguns dos livros publicados sobre a arte do pranayama (as antigas técnicas para absorver a energia do Ki ou prana por meio da respiração) são muito nocivos, pois raramente advertem os estudantes acerca dos riscos derivados de uma prática indiscriminada. Não esqueçamos que trabalhar com a energia do Ki sem um guia que conheça a ciência do uso da energia e a anatomia do corpo humano, é literalmente brincar com fogo.
Por outro lado, as técnicas de Aikido e de outras vias como a arte da espada ou o Karate-do tradicional, que incorporam numerosas formas de exercícios respiratórios, fazem desenvolver muito rapidamente uma grande quantidade de Ki hárico, e se não existe uma conduta elevada, guiada por grandes valores humanos como compaixão, não-violência, desapego e equanimidade, veremos surgirem sintomas de nossas paixões dominantes, nossas tendências latentes (sámskaras) e inércias mentais (vasanas).
Os mestres nos dizem que o Ki pode expressar-se de duas formas bem diferentes: como tariki, o “Ki criativo”, feliz, pacífico, alegre, expansivo, inclusivo e fluido, que surge do coração e dos centros (chakras) superiores, ou o yoriki, o “ki nefasto”, destrutivo, egocêntrico, impetuoso, individualista, que tende à agressividade e, inclusive, à violência. Este é o Ki do hara ou cérebro reptiliano e abdominal, com todas as suas nefastas e imprevisíveis consequências. Precisamente este tipo de Ki negativo, ancorado no hara, é o que muitos guerreiros samurais desenvolvem, e por azar uma grande maioria dos praticantes de artes marciais e de professores que não tiveram a fortuna de serem instruídos por um professor compassivo, pacífico e sábio.

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